quarta-feira, 1 de março de 2017

Filmes, séries e uma pincelada de psicanálise: sobre Once Upen a Time, com tradução para o português “Era uma vez…”
   
O seriado Once Upon a Time é uma série americana que faz referencias aos personagens dos Contos de Fada que os Irmãos Grimm compilaram entre 1812 e 1822 (fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Branca_de_Neve, acesso em 01/03/17).

Este seriado chamou minha atenção pela profundidade da trama com que os personagens são construídos a qual possibilita falar de Psicanálise. 

A história do seriado começa com uma maldição sendo lançada pela Bruxa Má a comunidade da Floresta Encantada. Esta maldição diz respeito a que todos ali vão para um lugar muito ruim. Para que o feitiço aconteça a Rainha Má precisa sacrificar a pessoa que ama. 

Quando estava assistindo o seriado, pensei que todos iriam para um lugar feio, cheio de fogo saindo do chão com semi-vivos se rastejando, coisas do tipo. Porém, tive uma surpresa quando vi o que acontecia. Os personagens vão para uma cidade, chamada então de Storybrooke. Este lugar é bonito, as suas ruas limpas. Muitos cidadãos de Storybrooke aparecem trabalhando, há aqueles que estudam, tendo uma casa para viver e ainda há uma grande área verde, que podem passear. 

Todos estas possibilidades de oferta de uma vida pública que podem contribuir que acredito que muitos de nós entendemos como boas condições de vida: moradia, trabalho, estudos e saneamento público.

Então, qual é a maldição? Qual é o problema?

Lá em Storybrooke do começo do seriado Once Open a Time o tempo não corre, não há história, muitos munícipes estão convivendo com quem amam, mas não sabem que as amam, praticamente apenas “se trombam”. Estas pessoas passam a estar com a maldição feita num lugar, que posso dizer, a-histórico e a-temporal.

O cotidiano de cada personagem aparece cada um exercendo suas funções rotineiramente, repetidamente. A Branca de Neve (Ginnifer Goodwin) é professora de uma escola, que “sem saber” dá aulas para seu neto, Henry (Jared Gilmore), ela também não se questiona onde possa estar seu esposo, o Principe Encantado (Josh Dallas), pois não lembra dele. O tempo não passa, assim não produzem história e mesmo estando perto de quem amam, não o sabem, pois não tem esta consciência. Esta é a maldição: todos serem obrigados a viver num lugar onde não sabem porque estão ali, não sabem quem são as pessoas com quem convivem, não conhecem suas histórias antigas, nem as atuais, por isto não estão “ao lado” de quem amam. Sem memória e sem tempo, “se vive” anestesiadamente.

A possibilidade do experienciar de um modo que há um resgate histórico e temporal no seriado se dá com a chegada de uma pessoa de fora desta cidade, chamada de salvadora. Esta personagem é Emma Swan (Jennifer Morrison), filha de Branca de Neve e do Principe Encantado, a qual é enviada para o mundo real recém nascida, antes da maldição ser lançada. Quando Emma chega na cidade, uma mudança significativa: o relógio passa a funcionar. Começam a aparecer pequenos relances de memória por alguns personagens. 

Uma cena neste momento se passa com o caçador, da história de Branca de Neve, que em Storybrooke é um policial, começa a se questionar com ela se havia algo que viveu antes daquele momento. O policial pergunta para a Branca de Neve: “Como se conheceram?”; “Desde quando são amigos?” e “Como foi que conseguiram os trabalhos que fazem?”. O que causa um efeito de espanto em Branca de Neve. Ela naquele momento apenas consegue dizer que “sempre foi daquela forma” sic.

A afetação, o resgate histórico, aos poucos começa a ser remontada no discurso da população de Storybrooke. O que dispara a possibilidade de ampliarem a consciência do que  estão vivendo, algo de como foi conhecer um ao outro, algo sobre os lugares que passaram, por exemplo, que permite uma releitura sobre a relação destas pessoas.

Podemos pensar nas histórias do seriado como metafóricas, para representar nossa relação com o sofrimento e alegria, bem estar. Não abordando que as questões como trabalho, estudo e moradia, mas abrindo-se para outras questões que dizem também respeito a condição humana. Assim, olhar a “maldição para um lugar ruim”, um lugar onde se experimenta o sofrimento, há processos psíquicos, que como já foi falado, os quais a população “depois da maldição lançada” e antes da “Salvadora chegar” vivem de modo sem saber de sua história e sem o tempo sequer passar. Com relação a esta situação, Freud, quem desenvolve a Psicanálise, tem algo a contribuir. Freud (1990) quem fundamenta o inconsciente como um mecanismo que está presente no aparelho psíquico, onde está do sujeito aquilo que ela não tem acesso consciente (Cs). E uma semelhança com a condição da maldição do seriado é que o inconsciente (Ics), assim como a vida em Storybrooke, pois o primeiro é “intemporal”, nas palavras de Freud:

“Os processos do sistema Ics. são intemporais; isto é, não são ordenados temporalmente, não se alteram com a passagem do tempo; não têm absolutamente qualquer referência ao tempo. A referência ao tempo vincula-se, mais uma vez, ao trabalho do sistema Cs. (Freud, 1915, p.192).


Para finalizar por hoje, sobre modo de vida que se repete, sem referencias históricas e temporais, também pode ser equiparado com a forma com a qual vivemos hoje, onde muitas vezes repetimos nossos trabalhos cotidianamente e convivemos com as pessoas no trabalho e ou vida social sem ter a noção muito clara, mas alienada de onde os conheceu, do como foi que foram parar ali, do como foi desenvolver aquele ofício, do como foi parar ali na vida social e familiar que tem, por exemplo. Podemos viver, muitas vezes, num automático, de relações sociais pessoais, com objetos, com o trabalho que desenvolvemos.

  Freud propõe o método psicanalítico para que as pessoas, as quais chamou de analisandos, pudessem “resgatar a memória que esqueceu que esqueceu”, um conteúdo que  também se refere ao que nomeia de “inconsciente”. Mas ele diz que esse resgate não pode se dar sozinho, há de se ter alguém que possa ouvir os elementos mais “sem sentido” “mais desconexos”, que é a forma que o inconsciente é representado: essa pessoa seria a figura do analista. 

Através da “relação terapêutica” que seria possível então a conscientização dos elementos inconscientes pelo analisando. Assim como a memória dos personagens do seriado não volta “do nada”, mas a partir da relação com um outro, seja “a Salvadora”, mostrada logo nos capítulos iniciais do seriado, a qual testemunha histórias, no mínimo. E considerando que a personagem externa não contribui para que os cidadãos possam rememorar suas histórias falando somente a eles, mas ela passa a poder ser acessada. Como comentei anteriormente, no seriado ninguém lembrava do porque estava ali, quem eram as pessoas na sua história de vida com quem convivia e o tempo estava parado numa cena de vida que apenas se repetia, como um tom de mesmice. A relação em que os conteúdos inconsciente que os cidadãos de Storybrooke, num momento anterior a chegada de Emma “a Salvadora” tinham “esquecido que tinham esquecido” e passam a começar a duvidar que haveria “algo mais” até que podem num próximo momento duvidar e acessa-los, com a entrada de Emma, portanto, um elemento externo, que funciona de uma forma, minimamente, como uma testemunha das experiências que estão sendo vividas.

Na série, mostra-se que resgata um tempo histórico onde se estabelece simbolicamente relações com quem está ao seu lado, com o ofício que desenvolve, entre outras, como uma forma de aproximar as pessoas que amam, talvez lembrá-las que tem esta possibilidade e, com isto, quebrar uma maldição.
Ótimo seriado. E pode ser uma boa metáfora a auxiliar a nos questionar sobre nós mesmos e falar um dedo de prosa sobre Psicanálise.

Referências Bibliográficas

Freud, S. (1900). A Interpretação de Sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 2001.
Freud, S. (1915). O Recalque. In: FREUD, S. Escritos sobre a psicologia do inconsciente. v. 1. Rio de Janeiro: Imago, 2004, p. 175-193.